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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um convite poético para Joselito

Por:
Caio César Muniz
Editor da Coleção Mossoroense




Sempre recorro às cartas de Rainer Maria Rilke ao também poeta Franz Xaver Kappus quando me pedem para prefaciar uma obra.

As cartas já têm mais de cem anos, mas, em se tratando de aconselhamentos poéticos, parece que foram escritas ontem, ao cair da tarde, entre um café e um poema teimosos.
Prefaciar uma obra é uma espécie de apadrinhamento. O autor quer saber o que achamos daqueles versos que ele pôs no mundo e nós, os padrinhos, não temos como dizer que a criança é feia, afinal, são nossos afilhados.

Neste caso, mais específico, dos trabalhos de Joselito, realmente não há necessidade de mentiras, assim como ele, o autor, não precisa de apadrinhamentos (creio até que já o disse isto numa outra empreitada literária conduzida por ele).

Na carta de Rilke, escrita para Kappus em 17 de fevereiro de 1903, ele fala àquele escriba iniciante: “Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.”

Desta forma, digo para Joselito dos Santos: sim, seus versos são muitos bons aos meus olhos. Me agradam e me emocionam, mas não sou eu o dono da razão.

Como refere Rilke, goste você dos seus próprios escritos e o resto do mundo o seguirá. Creio que você está no caminho, percebe-se isto com facilidade e ao folhear a primeira página. Não vejo a hora de saborear esta mistura tão fina que você produziu: “Café com Poesia” é do título ao ponto final.

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