Vez por outra olho pra mim e percebo-me debruçado na janela dos meus pensamentos, viajando de volta por lugares que vivi enquanto criança. No ritmo cadenciado da locomotiva que trouxe eu e minha desfragmentada família à capital: “Café com pão, bolacha não, Café com pão, bolacha não, Café com pão, bolacha não...” Riscando os trilhos a todo vapor. Lembro bem que naquela noite, ou quase madrugada, dormimos no chão da estação, aguardando a chegada do trem. Durante a viagem, a minha avó segurou-me na janela do trem para que eu fizesse xixi da janela, pois o vagão do trem não possuía banheiro...
Meus pensamentos, de mãos dadas às minhas lembranças, tiram férias de um instante no agora, e vão a lugares fantásticos que marcaram a minha vida, lugares que refletiram paisagens que comporão a colcha de retalhos da minha história.
Nessa incursão, por um tempo pensei: Será que conseguirei descer descalço nas estações onde se encontram cenários que falarão muito do meu passado? Será que a aproximação dessas lembranças, não gerarão conseqüências complicadas de se resolver no presente? Será que algumas sombras recolhidas em seu devido lugar não voltarão a assombrar-me? Não sei, vou continuar!
E em algumas estações da minha vida, defrontei-me com cenários que me trouxeram boas recordações...
Voltei ao trem, continuei a viagem.
Adiante fui assaltado por uma lembrança que insistia em fazer-me de refém em uma estação importante da minha vida, a mesma julgava-se detentora de uma recordação valiosa: a imagem de meu pai indo embora com outra mulher que não era minha mãe...
Nesse ínterim, algo me chamou a atenção de uma forma estranha, era como se eu desejasse permanecer ali, olhando aquele cenário, incansavelmente, na imagem de uma criança, com camisa branca de botão, short de pano de saco, sandália havaiana, magro, triste e contemplativo em uma imagem que retratava um fim indesejado.
No entanto, algo subitamente tomou-me pelos braços e arremessou-me de volta aos prumos da minha sanidade.
Rever a exposição de quadros que contém imagens antigas, pintadas com as nossas experiências de vida, onde fizemos questão de guardar, tentar esquecer, não tratar a imagem na época da pintura, verdadeiramente não é tão simples assim.
É preciso estar bem resolvido consigo mesmo.
O que ainda não é o caso!
Ufa! Hora de trabalhar!
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