Certa vez, um pequeno jovem passeava numa praça, muito feliz. Sempre sorridente, observando os lindos jardins de sua cidade, até que uma linda flor chamou-lhe a atenção.
Embevecido pelos encantos da pequena flor ocorreu-lhe uma indagação: “Como te chamas?” Ao perceber seu silêncio pôs-se a contemplá-la com mais afinco, absorvido que estava com a beleza singular desta magnífica flor.
Subitamente, surge, como que por encanto, um velho, de aparência frágil, mas de um vigor interior muito forte. Sem muitas delongas aproximou-se do garoto e contou-lhe uma história sobre a venerada flor, - objeto de sua adoração – que o deixou fascinado e, ao mesmo tempo, apreensivo! A história versava sobre um momento particular dessa flor e o velho a contava como se houvesse acompanhado a sua trajetória natural e sua importância naquele jardim.
“Num passado distante, existiu uma garota chamada Camila. Camila era alegre, simpática, brincalhona e muito extrovertida. Vivia sorridente e feliz até a chegada de Hanskovisky, um certo jovem que chegou à cidade a procura de emoções fortes. Hanskovisky, era um jovem descendente de Alemão, filho de Senhor Hanskey, um ex-combatente, reformado, casado com uma brasileira Rancine, do interior de Maranguape, filha de um barão do café, enviada pelos seus pais para fora do país, para estudar, conhecendo lá o senhor Hanskey, namoraram e casaram-se e tiveram um filho, Tibucio Hanskovisky.
Quando seus pais decidiram vir embora para o Brasil, Hanskovisky ficou com os seus avós, por parte de mãe, que já estavam morando em São Paulo, na capital para estudar, e Rancine e senhor Hanskey, seguiram para Salvador-Bahia.
Hanskovisky era muito simpático, herdou isso de sua mãe, e o coração romântico do pai, todavia, herdou do avô paterno a personalidade forte e seu jeito brincalhão.
O jovem guardava em seu coração a esperança de encontrar um grande amor, a despeito de seu jeito, as vezes, debochado e sua aparente descrença nas mulheres.
Entretanto, numa tarde de sol forte, Hanskovisky passeava numa rua estreita, de caminhos íngremes e topografia incerta. Seus pensamentos vagavam por entre plagas desconhecidas e ele não se dava conta dos caminhos que estava percorrendo. Caminhos que o levariam ao encontro com o destino. Ao virar uma esquina, deparou-se com uma jovem de aparência bela: pele clara, cabelos pretos e olhos castanhos-amendoados. Era de uma beleza singular. Hanskovisky ficou tão encantado com a jovem que quase não conseguia mover as pernas para dar o seguimento a sua viagem.
Os dois entreolharam-se rapidamente e a jovem continuou seu passeio em direção a uma rua desconhecida deixando o nosso jovem ali, parado, seguindo-a com os olhos e gravando-a em sua retina. Tudo não durou mais que 10 segundos, mas para Hanskovisky foi como se fosse uma eternidade: aquela garota ali... a seu alcance despertando-lhe emoções que há muito não sentia (...)
De repente, a garota sumiu no final da rua, fazendo o jovem rapaz recompor-se daquele que seria o melhor susto da sua vida.
Hanskovisky seguiu seu caminho tentando dar nova orientação aos seus pensamentos. Porém, era impossível esquecer aquela visão magnífica, estonteante, uma imagem que ficou gravada no seu consciente e ele percebeu que sua “viagem” encerrava-se ali, naquela esquina; como se aquele encontro significasse o fim de uma busca... de uma aventura; de um sonho que Hanskovisky alimentava há muito – o de encontrar a sua “cara metade”.
Passaram-se alguns anos até que Hanskovisky a visse novamente. Nesse ínterim, o sofrimento foi o alicerce que edificou o seu amor por Camila, fazendo-o cada vez mais forte a ponto de dispensar os assédios mais contumazes. Desta vez, o encontro foi mais caloroso. Camila estava mais solícita, mais receptiva. Seus olhos revelavam um brilho tão fascinante que deixava o nosso jovem ainda mais apaixonado. Porém, Hanskovisky estava cauteloso, tentava disfarçar a emoção de tê-la novamente à sua frente. Suas mãos suavam e sua voz estava embargada. As palavras soavam como um disco arranhado tal a emoção que o dominara; seus olhos estavam fitos nos de Camila. Para ele, o mundo parou ali. O mundo estava no rosto de Camila, de traços delicados e formas geometricamente perfeitas.
Surpreendentemente, Camila afaga-lhe a face deixando o rapaz ainda mais nervoso – ele não imaginou que merecia o toque daquelas mãos tão meigas.
Subitamente, Hanskovisky sente seus lábios envolvidos no de Camila e, apertando seu corpo ao dela, percebe sua respiração interromper-se num longo beijo.
Com os olhos semi-cerrados, curtindo as emoções daquele momento, Hanskovisky não percebe, ainda, a ausência de Camila. Ao abri-los, qual não é sua surpresa ao descobrir que sua amada havia desaparecido. Antônio procura-a ao seu redor, andando de um lado para outro, tentando entender o que acontecera.
Deslocado e triste, nosso jovem sentou-se em uma pedra, mãos entre os joelhos, apoiando a cabeça, e põe-se a chorar. Chorar copiosamente como se quisesse tirar de suas entranhas a dor da perda de seu amor.
Enfraquecido, sem a mínima esperança de reencontrá-la, caminhou em direção a um jardim e, fitando uma pequena flor que acabara de desabrochar, tocou-a delicadamente e chamou-a de flor de Camila – uma forma de perpetuar, naquele jardim, na beleza daquela flor, o seu amor por Camila.
Ao termino da história o jovem que a escutava com tamanha atenção, não sabia o que dizer, grande era sua admiração pelo que acabara de ouvir. Ele levou algum tempo para perceber que o Velho também sumira – tal qual o personagem da história – e seguiu, tranqüilamente, com a promessa, em seu íntimo, de todas as manhãs regar aquela flor, que passou a ter um significado maior em sua vida, tal a sua verdadeira importância naquele jardim.
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